Poemas para Ler ou Ouvir

Poemas para Ler ou Ouvir

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NÃO HÁ OUTRO CAMINHO
para o Vítor


Os poemas podem ser desolados
como uma carta devolvida,
por abrir. E podem ser o contrário
disso. A sua verdadeira consequência
raramente nos é revelada. Quando,
a meio de uma tarde indistinta, ou então
à noite, depois dos trabalhos do dia,
a poesia acomete o pensamento, nós
ficamos de repente mais separados
das coisas, mais sozinhos com as nossas
obsessões. E não sabemos quem poderá
acolher-nos nessa estranha, intranquila
condição. Haverá quem nos diga, no fim
de tudo: eu conheço-te e senti a tua falta?
Não sabemos. Mas escrevemos, ainda
assim. Regressamos a essa solidão
com que esperamos merecer, imagine-se,
a companhia de outra solidão. Escrevemos,
regressamos. Não há outro caminho.
 
Rui Pires Cabral, in Morada, ed. Assírio & Alvim


Eu nunca gostei de portas, sempre as vi como
um grosseiro despotismo. Não percebia por
que razão davam passagem a uns e outros não.
Rebelei-me contra elas, tornei-me arrombador.
Decidido a contestar os seus desígnios, passei
os melhores anos da minha juventude a estudar
o idioma das fechaduras. Aos poucos, alcancei
uma secreta mestria: nenhuma resistia à sedução
dos meus arames. As portas franqueadas, e não
o que atrás delas se defende, procurava. Poucas
vezes roubei. Esta alegria me bastava - introduzir
desordem na composta segurança duma casa.
Agora que penso nisso, acho que havia algo
de bárbaro nessa minha obsessão por destruir
a ilusória placidez das fortalezas, os escudos
da propriedade, da suficiência. Porta atrás
de porta, a minha vida passou. Até chegar aqui,
a este lugar indistinto. Também nele há uma porta.
Não me seria difícil arrombá-la. Não fosse dar-se
o caso (e esse é o castigo da minha soberba)
de não saber se estou no céu ou no inferno.
 
 
José Miguel Silva, in Erros Individuais, ed. Relógio D' Água


Chegam cedo demais, quando ainda não podem escolher
nem decidir. Vêm carregados de espectros, de memórias
e de feridas que não souberam sarar; mas trazem a confiança
da cura nas palavras. Convencem-se de que amam outra vez
 
quando nos tocam os pequenos lugares, esquecendo-se do rumo
incerto dos seus passos nas estradas tortuosas que os
trouxeram. Abafam-se num cobertor de mentiras sem saber e
falam de injustiça quando tentamos chamá-los à verdade.
 
Dormem de vez em quando nas nossas camas e protegemo-los
da dor como aos filhos que não iremos ter nunca
porque não nos resignamos a perdê-los. E, um dia, partem, vão
 
culpados, não chegam a explicar o que os arrasta. Escrevem
cartas mais tarde - uma ou duas para se aliviarem dessa espada.
E nós ficamos, eternamente, sem vergonha, à espera que regressem.
 
Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, ed. Quetzal


INSÓNIA
 
Penso que sonho. Se é dia, a luz não chega para alumiar o caminho
pedregoso; se é noite, as estrelas derramam uma claridade desabitual.
Caminhamos e parece tudo morto: o tempo, ou se cansou já desta
caminhada e adormeceu, ou morreu também. Esqueci a fisionomia da
paisagem e apenas vejo um trémulo ondular de deserto, a silhueta carnuda
e torcida dos cactos, as pedras ásperas da estrada.
Chove? Qualquer coisa como isso. E caminhando sempre, há em redor de
nós a terra cheia de silêncio.
Será da própria condição das coisas serem silenciosas agora?
 
Carlos de Oliveira


CORO DOS MAUS OFICIAIS DE SERVIÇO
NA CORTE DE EPAMINONDAS, IMPERADOR
 

uma morte loura
simpática
acolhedora
que não dê muito que falar
mas que também não gere
um silêncio excessivo
 

uma morte boa
a uma boa hora
uma morte ginasta      tradutora
relativamente compensadora
uma morte pedal espinha de bicicleta quase carapau
com quatro a cinco soltas a dizer
que se ele não tivesse ido embora
tão jovem         tão salino
boas probabilidades haveria de ter
de vir a ser
dos melhores poetas pós-fernandino
 
 
vá lá      vá lá Mário
uma morte
naniôra
que não deixe o esqueleto de fora como nos casos do mau gosto
os esqueletos têm sempre um quê de arrependidos
se bem que por aí já convinha lá isso já também era verdade
 
 

o demais         demora
e
francamente
nunca será teu
 
 
vá vá vamos embora
 
 
custava-te menos agora
e ainda ias para o céu
 
 
Mário Cesariny, in Manual de Prestidigitação, ed. Assírio & Alvim


GENEALOGIA

Para a Céu

Tinha medo de morrer, a minha avó.
A minha mãe não, nunca teve,
e o meu pai tem desde que me lembro
um talento inato para contornar a questão.

Era um medo simples e espontâneo,
o da minha avó. Receava
não acabar o bordado infinito
e o alheamento de tudo,
com a vaga excepção do afecto.
Queria apenas encontrar a manhã,
o pequeno missal junto à cabeceira
- e foi, sem o saber, a minha «musa distraída».

Arrependi-me, tantos anos depois,
de julgar que a vida se podia - querendo
ou não querendo - deitar fora.
Ainda aqui estou, vivo e descontente.
Não esqueço a antiga criada (foi mais
do que isso: uma segunda mãe) perguntando-me
num sorriso se eu, no fundo, desejava
a morte que a avó não queria desejar.

E poluo essas memórias, talvez
por saber que não voltarei a atravessar
com ela a rua onde mais vezes caiu,
onde era senhora distante de um mundo
acabado, vagamente aristocrático
e, por sorte, ainda sem muito trânsito.

Ninguém, mesmo que queira,
quer morrer. E, do mais, ficam-nos
vislumbres, pormenores, anotações
cujo sentido descobrimos demasiado tarde.

Não sei se a cultura ajuda. Preferia
a qualquer obra de Bach
que a música ambulante do amolador
pudesse de novo passar na infância,
na infância breve de estarmos ambos vivos,
sentados na varanda. À espera de dias
iguais, sob a alta sombra de pinheiros.

Era isso.

Manuel de Freitas, in Sunny Bar, ed. Alambique


POEMA DE AMOR
 
Os segredos de amor têm profundezas difíceis de alcançar,
tal como a chuva que hoje cai e nos molha na calçada a face,
nós olhando triste uma saudade imensa
num corpo de mulher metamorfoseada.
 
Sou demasiado são para me esquecer
do tempo apaixonado que vivi nos teus braços
e bebo no teu um coração meu
adormecido no mar do meu cansaço
ou no rio das minhas secas lágrimas.
 
Tardará muito, se é que as horas contam,
ver-te, de novo, perto de mim, longe,
mas eu espero, sou paciente e, no meu canhenho, aponto,
um dia a menos, o da tua chegada.
E assim me fico, rente ao horizonte,
abrigado da chuva numa cabine telefónica,
e ligo para ti - que número? - ninguém responde
do oceano que avança e retrai colinas,
o vulto de um navio, tu na amurada
acenando um lenço, ó minha pomba branca!...
 
Como se tempestade houvesse e um naufrágio de chuva
- as vidraças escorrem, as árvores liquefazem-se... -
escurecendo os teus cabelos,
ou, se preferes, a minha boca neles
carregada de ilhas, de nocturnos perfumes
que ateiam lumes, ó minha idolatrada,
na minh' alma inquieta um outro bater d' asas
ou num jardim um leito de flores!...
 
Ruy Cinatti, in Obra Poética, ed. Assírio & Alvim


Sorrio aos mortos e enterro os vivos
como um objecto escuro
por que rodaram mãos e jeitos de luz.
 
Vivo como se não estivesse aqui
roupa leve como na vida.
E vou da primeira à última batida
na respiração de um pulmão doido.
 
Lê assim
 
podia arder a uma pouca distância de ti
nessa praceta que é um poema teu
e as coisas voltariam a mim, meras,
como o ser transportada pelos dias
mas cairei por aqui.
 
Meu amor
 
Porta no trinco e nada nas mãos.
Há muito que é tudo o que resta.
 
Raquel Nobre Guerra, in Senhor Roubado, ed. Douda Correria


aqui estou eu entre demónios e paredes lisas
solicitando certificados bulas para viver melhor à sexta-feira
vale-me não ser ninguém: faziam-me a vida negra
assim basta o cinzento fato completo silencioso com lugar para os olhos
levantar cedo ver passar os carros
estar certo que o que digo já foi dito e selado
agora não me resta poesia alguns dias mais oscilando a cabeça
fazendo que sim
 
dá vontade de fugir vomitando tudo em volta mas o preço é preciso
se ao menos inventasse a cura do ar podia secar tranquilamente
agora espero pelo meio do escuro para gritar errei! errei! desmanchando o
                                                                                                [cabelo
nada disto é a minha vida!
para que ninguém ouça nas coloridas salas do inferno terceira repartição
onde somos, mas todos, contínuos de comer por fora
Melhor seria ter ficado de lado entregue à simplicidade dos caminhos
sabendo que em nenhum lugar está a minha parte
 
Ao atravessar as ruas há outros como eu
a jeito para enfiar uma navalha ao fim da tarde
Aqueles para quem o mundo ia ser outro de mãos lavadas
e ficou tudo igual com mais ausentes à mistura
Um dia destes dou baixa dos infernos por motivo de cegueira interna
ou mando-me de um sítio alto
depois não sei se voltarei feito demónio de província
ou ficarei eterno como um exemplo a não seguir
 
António Franco Alexandre, in Poesia, ed. Assírio & Alvim


HAVEMOS DE IR A VIANA

Havemos de ir a Viana, dizias, e eu perguntava-te porquê Viana, e tu não
respondias, não poderias responder porque não estavas ali comigo, naquele
lugar que tinha o desconsolo de não ser Viana, e eu com as tuas flores na
mão e o cartão onde tinhas escrito apenas isso, Havemos de ir a Viana, e eu
a segurá-lo como se segurasse o bilhete para a viagem e a perguntar-me
porquê Viana, eu que na verdade não segurava o teu cartão, não segurava
nada e era esse o meu problema, eu insegurava, eu insegurava tudo e
imaginava-te a sorrir com os meus jogos de palavras, tão parvos como a
nossa separação, e perguntava-me porquê Viana, e lembrava-me vagamente
dessa expressão, talvez num poema, talvez numa canção, e ia para a
internet escrever a tua frase e depois esquecia-me de entender o que tinha
aquilo a ver connosco, perguntava-me porquê Viana e na minha imaginação
tu respondias que Viana era o lugar seguinte, respondias é isso que importa,
que seja o lugar seguinte, e eu que tinha a mania de interpretar tudo, de
exagerar tudo, de confundir tudo, e desta vez não poderias ser tu a
esclarecer esse terrível mistério, e na minha imaginação tu passavas a mão
no meu cabelo e explicavas-me que o que importava não era bem Viana,
que o que importava era o verbo, a forma verbal, que era nesse havemos de
ir que tudo existia agora sem mim, e eu a descobrir tudo, eu que não
conhecia Viana mas que te conhecia, e talvez nunca te tivesse conhecido
realmente sem ter ido contigo a Viana, mas como é que eu fiz isto, como é
que nos separámos antes de termos ido a Viana, eu a entrar em pânico
e a querer ir contigo a Viana ou a qualquer lugar seguinte, eu que estava no
Porto sem ti, que até não ter ido a Viana era algo que tinha feito sem ti, eu
que em Viana talvez estivesse contigo, e Viana era como se fosse futuro,
e então em vez disso tu poderias ter dito Havemos de ir ao futuro, e eu cheia
de pressa, cheia de pressa de te dizer sim, havemos de lá ir.

Filipa Leal, in Vem à Quinta-Feira, ed. Assírio & Alvim


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